Argumentação no filme Gattaca
No filme visionado na aula de Filosofia, “Gattaca”, é-se confrontado com múltiplos argumentos e ideais defendidos por dois tipos de argumentadores distintos: os que defendem a Reprodução Medicamente Assistida, o melhoramento da espécie através da manipulação genética; e os que defendem a Reprodução Natural. Estes dois tipos de argumentadores baseavam-se, respectivamente, nas seguintes frases, que foram mostrados no início do filme:
o “Creio, não só, que vamos interferir na natureza, como ela quer que o façamos.” – Willard Gayllin (argumento da ciência)
o “Atenta para a obra de Deus: Porque é que alguém poderá endireitar o que ele fez torto?” – Eclesiastes 7:13 (argumento da tradição)
A primeira tese remete-nos para argumentos como a (fraca) possibilidade de não ter problemas de saúde (como por exemplo problemas cardiovasculares, miopia, entre outros), eliminado deste modo qualquer imperfeição que pudesse existir no corpo humano. O objectivo será, portanto, criar seres humanos perfeitos, sem qualquer defeito, capazes de fazer evoluir a espécie.
No entanto, as garantias dadas, por exemplo, pelo geneticista do filme, aos pais de Anton, não eram 100% seguras, não se revelaram acertadas a 100%, uma vez que Anton mostraria, numa ocasião, ter menos capacidades físicas do que o seu debilitado irmão Vincent. E é este um dos contra-argumentos mais significativos em relação à RMA: houve omissão de informação relevante, que se prendia precisamente com a (mínima) percentagem de insucesso aquando da manipulação genética. Este é, ao mesmo tempo, um dos argumentos fortes que não justifica a verdade da conclusão:
Noventa e nove por cento dos indivíduos geneticamente manipulados são perfeitos.
Logo, todos os indivíduos geneticamente manipulados são perfeitos.
Ora, era este o raciocínio que vigorava na sociedade representada no filme. Contudo, ele é inválido: não se podem fazer generalizações quando a amostra omite informação relevante. A generalização deve ser rejeitada se já forem conhecidos contra-exemplos. E, de facto, o filme mostrou-nos isso: dois contra-exemplos. O de Irene, um ser humano fruto da RMA, e o de Vincent, fruto da Reprodução Natural. Isto mostra igualmente que, mesmo que se crie um ser humano à partida perfeito, isso não significa que, ao longo da sua vida, e com a evolução natural das células, o ser humano não contraia nenhuma doença ou que não lhe aconteça nada de mau (veja-se o caso de Jerome, por exemplo). E é exactamente este facto que, por si só, refuta as bases lógicas do conteúdo dos argumentos apresentados no filme, a favor da RMA. Verificou-se que, mesmo havendo uma percentagem mínima de “sucesso” nos seres humanos criados através da RN, e uma percentagem mínima de “insucesso” nos criados através da RMA, essa percentagem existia efectivamente, e não podia ser negligenciada, omitida, ignorada.
Conclui-se, deste modo, que, mesmo que haja uma possibilidade mínima de algo acontecer, isso pode efectivamente ocorrer. Daí não nos podermos basear “cegamente” numa tese. Viu-se que, numa primeira instância, os pais de Vincent confiaram em Deus, ou seja, adoptaram a Reprodução Natural, no nascimento de Vincent. Porém, numa segunda instância, os pais, agora conscientes do erro que tinham cometido ao escolherem a RN, optaram pela RMA aquando do nascimento do seu segundo filho, Anton. Verificou-se ao longo do filme, no entanto, que Vincent contrariou, positivamente, as expectativas definidas logo após o seu nascimento, nomeadamente a nível da esperança de vida. Por sua vez, Irene também contrariou as expectativas, mas negativamente.
André Pinto
Nº5 11ºE
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
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