«O que queremos alcançar com a nossa vida?»
Alexandra: O que farias se como o pastor referido na República de Platão encontrasses um anel que te permitisse tornar invisível:
Continuarias a fazer o que está certo?
Aproveitarias a oportunidade para fazeres apenas o que te apetece no momento?
Aproveitarias a oportunidade para ganhares dinheiro?
António: Há razões para fazermos o que está certo, ou seja razões éticas, na medida em que se não reflectirmos, no que devemos fazer, nunca escolheremos a forma como queremos viver.
João: O que acontece no nosso mundo é que muitas pessoas são levadas a escolher o enriquecimento por acumulação infinita de dinheiro, ou mesmo o enriquecimento ilícito.
Laryssa: Aristóteles diria que estas pessoas acreditam que dinheiro é riqueza e confundem o meio com o fim e interrogava-se “Como pode algo ser riqueza se posso possui-lo em superabundância e, no entanto morrer de fome? “
Gonçalo: A acumulação do dinheiro, ou do lucro pelo lucro, sem outro objectivo, perde todo o sentido e conduz-nos a procurar, apenas, o interesse próprio.
Parece que estamos perdidos no mundo do lucro e que como indivíduos conscientes nada podemos fazer para encontrar um outro rumo para as nossas vidas.
Sara: De facto, não é assim!
Se analisarmos a ética não religiosa podemos encontrar uma resposta diferente para a procura do sentido da existência. As questões centrais da ética são as discriminações:
Quais as obrigações de todos nós no mundo rico, quando há pessoas a morrer lentamente à fome?
Inês: O que se pode fazer acerca do ódio racista, que impede as pessoas de viverem umas com as outras?
Raquel: O que podemos fazer para acabar com a violência doméstica e com todos os tipos de violência?
Solange: Teremos o direito de prender milhões de animais não humanos, tratando-os como meras coisas, só para satisfazer o nosso palato?
Hélder: Como podemos mudar o nosso comportamento, de forma a preservar o sistema ecológico do qual depende o planeta?
Bijal: Vamos procurar um fundamento, uma base mais sólida ou racional para a ética.
Vamos pensar e agir de acordo com um princípio universal um princípio que abranja todos os seres. Vamos diminuir a dor e o sofrimento, encontrem-se eles onde se encontrarem. Sabemos, por experiência própria, que quando a dor e o sofrimento são atrozes todos os outros valores ficam em segundo plano.
Solange: Se adoptarmos um ponto de vista do universo, poderemos reconhecer a urgência de fazermos alguma coisa relativamente à dor e ao sofrimento dos outros. Estaremos deste modo a agir mais racionalmente, ou a acrescentar razões objectivas, porque mais amplas e que dizem respeito a todos os seres do universo. Se pelo contrário agirmos apenas de acordo com a nossa razão subjectiva estaremos a ser menos racionais, pois, neste caso a nossa razão é tão só uma “pequena” razão.
André: Comparando a necessidade das pessoas que morrem à fome com o desejo de provar vinhos, este torna-se insignificante.
Analisando à luz do sofrimento de coelhos imobilizados em cujos olhos se deitam gotas de champô, o champô torna-se um objecto indigno.
A preservação de florestas seculares deveria sobrepor-se ao nosso desejo de usar papel de cozinha descartável.
A procura da harmonia deveria sobrepor-se a qualquer desejo de poder e de domínio sobre os outros.
Débora: Uma abordagem ética não proíbe a diversão, mas altera o nosso sentido das prioridades.
Todo o esforço utilizado para estarmos no centro das atenções, como vestir de acordo com a moda, ter o melhor carro, a melhor casa, torna-se desproporcionado para quem quer alterar a sua perspectiva de vida. Se dez por cento da população assumisse uma perspectiva conscientemente ética da vida e agisse de acordo com os princípios éticos que procurou, a alteração daí resultante seria mais significativa do que qualquer mudança de governo, pois não é do interesse dos políticos pôr em causa pressupostos fundamentais da sociedade que foram eleitos para chefiar.
Raquel: Temos de dar o primeiro passo. Temos de restaurar a ideia de viver uma vida ética como uma alternativa realista e viável, ao predomínio do interesse próprio, do egoísmo que actualmente se impõe.
Inês: Defenderemos novas causas e descobriremos que os nossos objectivos se alteram. Uma coisa é certa: encontraremos muitas coisas para fazer que valem a pena. Não nos aborreceremos, nem faltará sentido de realização nas nossas vidas.
Alexandra: O mais importante, saberemos que não vivemos e morremos para nada porque teremos passado a fazer parte da grande tradição daqueles (tal como os Filósofos do Jardim) que reagiram à quantidade de dor e sofrimento no universo tentando transformar o mundo num lugar melhor.
SINGER, Peter, Como Havemos de Viver?
Lisboa, Ed. Dinalivro, 2005, (Excertos adaptados)
quarta-feira, 15 de julho de 2009
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